O que o chá me ensinou sobre paciência

Por Mariana Klinke

Rio de Janeiro. Novembro. 2018. Uma garota que sempre escreveu, e achou que viveria para sempre de suas palavras, descobre um novo mundo. Um mundo feito de cores, aromas e sabores. Um mundo que a fez querer contar histórias de uma nova forma. Mas para isso, essa garota teria que desenvolver uma virtude cada vez mais rara nos seres humanos: a paciência. Considerando que sempre foi ansiosa desde a infância, a batalha para ela seria ainda mais complicada. Toda a vida, a garota ouviu sua mãe dizer: “Não sofra por antecipação”. Mas não adiantava. Ela sofria.



Mas, depois de 36 anos vivendo com essa ansiedade, a solução veio até a garota (que, no caso, sou eu) através da alquimia. A alquimia dos chás. E por que alquimia? Porque misturar elementos diferentes em busca de algo novo e único era exatamente o que faziam os alquimistas, uma mistura de magos e cientistas, cujas poções rendiam maravilhosos perfumes, mas também poderosos venenos. E tudo isso vinha da mistura exata de elementos simples existentes na natureza. E é exatamente isso que fazem aqueles que misturam flores, frutas, ervas, especiarias e chás, os tea blenders (expressão vinda do inglês que significa, literalmente, misturadores de chás).


O tea blending (mistura de chás) é uma arte baseada em conhecimentos e técnicas específicas, e, para se tornar mestre nela, é preciso praticar: misturar, errar, re-misturar, errar de novo até chegar à fórmula perfeita. Cada nova mistura de ingredientes requer a paciência da tentativa e erro até alcançar a quantidade precisa e cada ingrediente que expressará, em uma xícara, os sentimentos que a blendeira deseja passar para quem bebe. Provar um blend é uma oportunidade para viajar em lembranças boas, mas também para lugares desconhecidos… Um blend é uma história, é uma poesia.



Também é preciso ser paciente para esperar o tempo do blend estar pronto para consumo. No curso, desenhei um Earl Grey, famoso blend inglês de chá preto com essência de bergamota. Cada aluna do curso escolheu um tipo chá preto e uma porcentagem de essência para fazer sua mistura. O resultado desse trabalho, porém, eu só soube depois de quatro meses. Sim. QUATRO LONGOS MESES. Isso porque eu não tinha um desidratador na época, para o álcool que compõem a essência evaporar mais depressa. Assim, passei 120 dias mexendo a mistura (todos os dias) para a essência não acumular no fundo do pote e o álcool evaporar.


Com o tempo, a ansiedade pelo resultado se tornou uma expectativa tranquila. Mexer o blend todos os dias se mostrou tão terapêutico quanto as sessões semanais de análise. Foi a primeira vez que entendi de fato que o tempo das coisas não é o mesmo tempo dos humanos dos anos 2000 - algo que meu cérebro não conseguia compreender, por mais que eu analisasse meus pensamentos e atos, meu passado e meu presente, nas sessões de terapia. Desde novembro de 2018, venho desenvolvendo e testando blends para a lojinha online que estou montando com minha irmã (e que será aberta em breve!). Já sigam o perfil no Instagram: @dasmariasblends




Nesse último ano, aprendi que nenhuma conexão de internet de alta velocidade pode acelerar alguns processos da vida, incluindo o desenho de um blend. Aprendi também que existe um tempo para que os ingredientes de cada mistura se conectem, sejam eles pessoas, flores, frutas, ervas, especiarias, ou chás.


“Dê-se tempo para trabalhar, é o preço do sucesso. Dê-se tempo para pensar, é a origem do poder. Dê-se tempo para rir, é a música da alma. Dê-se tempo para ler, é o fundamento da sabedoria. Dê-se tempo para fazer amigos, é o caminho da felicidade”.

Antiga oração irlandesa

(A Alquimia do Chá, Victoria Bisogno)