EU, PINK E A AUTOESTIMA


hoje é dia de Pink, bebê! (Rock in Rio 2019)

No último dia 05 de outubro de 2019 eu vivi um dos momentos mais felizes dessa minha vidinha. Finalmente tinha chegado o momento de ver ao vivo e a cores a artista que fez eu me sentir menos sozinha durante pelo menos uns 20 anos da minha existência. Estou falando da cantora Pink e do seu maravilhoso show no Rock in Rio.


O principal tema das letras da Pink falam sobre se sentir inadequado no mundo. Esse sentimento me acompanhou desde criança. Quando eu, com 3 anos de idade, deitava no colchão da escolinha e ficava olhando para a parede, fingindo que dormia, para evitar interação. Quando eu tomava lanche sozinha na primeira série porque eu pensava um monte de coisas que as outras crianças não pensavam. Eu tinha muitas ideias, eu gostava de inventar histórias, minhas brincadeiras estavam no reino da fantasia e eu não sabia como brincar com elas. Conforme eu fui crescendo, essa sensação de inadequação cresceu junto comigo. Eu sempre me achei uma peça de quebra-cabeça sobrando no jogo da vida, que não tinha encaixe em lugar nenhum.


Houve momentos em que era muito difícil estar na escola. Sim. Eu sofri muito com a rejeição e o bullying. Você pode não acreditar, mas eu sou uma pessoa tímida e reservada. Amizades para mim se constroem aos poucos, porque assim a relação terá uma base forte e duradoura. Não sei chegar num lugar e sair falando com todo mundo. Eu sou do tipo que observa e depois interage. Além disso, nunca tive habilidade para os esportes, pois nasci com um problema crônico nos joelhos, que melhoraram após duas cirurgias, mas que não tem cura. Assim, acabei me tornando uma pessoa mais dedicada aos estudos, o que me ajudou a ser uma excelente aluna.


Só que, minha inabilidade para os esportes e as altas notas nas provas, além dos óculos e do aparelho nos dentes, criaram o quadro perfeito para eu ser alvo de piadas. A coisa piorou quando passei a estudar na mesma classe que uma menina extremamente competitiva. Ela era uma ótima jogadora de handebol, já havia ganhado campeonatos fora da escola, mas isso não bastava. Ela queria ser melhor em tudo e, como minhas notas eram mais altas que as dela, acabei virando o alvo principal de suas brincadeiras maldosas. Tudo era motivo para ela cismar comigo: a cor do meu relógio, o jeito que eu amarrava minha blusa na cintura, a fivela que prendia meu cabelo, o modo como eu andava, como eu falava. Cansada de ver os outros rindo de mim, fui eu quem parou de sorrir. Minhas únicas três amigas pararam de falar comigo por medo de sofrerem retaliação e eu fiquei isolada. Passava a hora do recreio na biblioteca, comendo meu lanche sozinha, e lendo algum livro. Por mais que pareça clichê, naquele momento, os livros se tornaram meus únicos amigos. Eu já adorava os livros, mas, depois dessa fase da minha vida, passei a amá-los. De alguma forma, eles me ajudaram a sobreviver àquele tormento. Afinal, nas histórias, eu podia tudo: podia ser jogadora, podia patinar no gelo, podia até virar sereia.


E fui carregando essa bagagem pesada e bagunçada dentro de mim sozinha. Por fora, tudo parecia bem. Por dentro, eu só desejava ser capaz de me encaixar. Até encontrar a música da Pink.


Pink, Rock in Rio 2019 (@mariklinke)

“Todo dia eu travo uma guerra contra o espelho. Não consigo aceitar a pessoa me encara de volta. Eu sou um perigo pra mim mesma. Não quero ser eu mesma. É tão ruim quando você irrita a si mesmo. Tão irritante! Não quero mais ser minha amiga. Eu quero ser qualquer outra pessoa”. Quando ouvi o refrão de Don’t Let Me Get Me pela primeira vez pensei: é isso! É exatamente esse o sentimento. Eu estava na faculdade e tinha 17-18 anos. Neste mesmo CD, ela canta: “Hey, garota! Você está pronta para hoje? Você tem seu escudo e sua espada. Está na hora de jogar. Você está bonita sempre, embora você duvide disso….Você pode me empurrar para fora da janela, e eu continuarei subindo. Você pode me atropelar com o seu caminhão de 18 rodas, mas você não vai conseguir me colocar pra baixo”. Isso era tão forte. Isso dizia que estava tudo bem eu me sentir estranha e ao mesmo tempo ser quem eu era.


Não posso dizer que ali, em 2001, eu me resolvi comigo mesma. Estaria mentindo. Precisei de tempo e amadurecimento para procurar uma terapia (quando eu era mais nova, terapia era coisa para maluco e existia muito preconceito por parte dos adultos). Depois de 10 anos de psicanálise e seis meses de terapia comportamental, finalmente consigo dizer que me aceito como eu sou. Aprendi a me abraçar e a me tratar melhor. Aprendi a ser carinhosa não só com os outros, mas comigo mesma.